Uma Casa Mal Arrumada
Era uma tarde quente de verão, com uma ligeira aragem, daquelas que nos refresca o corpo mas não é suficiente para fazer esvoaçar o cabelo. Eu tinha acabado de arrumar a minha vida. Tinha posto algumas pessoas nas prateleiras, varrido meia dúzia para debaixo do tapete e outras simplesmente tinham merecido ir com o saco do lixo da manhã. Não podia continuar naquela desarrumação... Todas as janelas estavam abertas, para arejar os recantos de um espaço onde parecia que eu vivia há séculos. Assim parecia, com a quantidade de pessoas que ali haviam estado e rapidamente saído (a maioria tinha sido eu a abrir gentilmente a porta...).
De repente, reparei que não me encontrava sozinha. Senti a presença de mais alguém comigo. Não foi preciso procurar para perceber que tu tinhas entrado, não sei bem se sorrateiramente, como a brisa dessa tarde, se de paraquedas (será que a minha casa não tinha telhad0? ou teria deixado alguma janela aberta?). A tua presença era muito forte, não era possível abstraír-me dela. Mas tu não podias estar ali. Não tu! Toda a gente menos tu poderia entrar! Fiquei em pânico quando te vi. Pensei imediatamente que tinhas de te ir embora, não podias ficar ali. Será que me tinhas visto a espreitar-te por entre as cortinas de uma janela?
Fiquei sem saber o que fazer, ninguém podia saber que ali estavas e especialmente que eu poderia ter desejado a tua intromissão desde o primeiro segundo que te vi. Mas a tua companhia sabe-me bem... as noites já não custam tanto a passar porque adormeço muitas vezes com o eco das tuas palavras.


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