Chuva
Eram três e meia e começou a chover. Sem forma de me resguardar a não ser um sobretudo, senti as primeiras gotas a roçarem a minha cara ao de leve. Tentei resistir-lhes. Pensei em dar uma corrida até à entrada de um prédio mais próximo. Mas aquele fiozinho de água a escorrer por uma madeixa de de cabelo até chegar ao canto da minha boca fez-me lembrar a última tarde em que te vi, em que estive contigo à distância de um toque (e nem uma palavra consgui dizer). Abrandei então o passo. Parecia que me encontrava num filme de época, a preto e branco, onde todos circulam em direcções erróneas e eu avançava numa câmara lenta destacada. E assim segui até ao meu destino, acompanhada por aquela chuva, soprada com um vento insistente e frio, que me trazia sentimentos repetidos. O ar que respirava arrefeceu subitamente, ficando o meu peito gelado e apertado. A respiração tornou-se forçada. Tal como naquela tarde. Parecia que estavas de novo perto de mim, comigo, ali, naquele momento. Todas as sensações se repetiam. Tenho a certeza que se fechasse os olhos e os abrisse novamente tu estarias ali, à minha frente (não quis arriscar). Continuei o meu caminho saboreando o molhado cada vez mais frio do meu corpo. Em tudo se assemelhava. Durante esse tempo estiveste comigo, talvez caminhando a uma curta distência e a viagem para casa deixou de custar tanto. Foi só neste bocadinho da tarde que te deixei entrar no meu pensamento e te pedi para caminhares comigo. Foi a chuva que te trouxe, a mesma que agora me ensopa o cabelo. Foi também a chuva que te levou, numa tarde de Outubro.
(Todas as tardes de chuva me fazem agora lembrar a última contigo. Rapidamente sou transportada para todos os momentos e sensações que choveram nesse dia. Parece realmente que lá estou....)


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