Luto Capitalista

Acordei com o sol do meio dia a bater-me na cara. Claro que dá vontade de adormecer outra vez e foi o que fiz, levantando-me hora e meia depois. Como é tradição quase desde sempre fui tomar o pequeno-almoço na pastelaria do costume (que muda conforme os diferentes sítios onde tenho morado), acompanhada pela revista feminina do mês. Depois de uns pingos de chuva a mais cheguei ao meu destino: o centro comercial. O pesadelo de qualquer pessoa num domingo à tarde, mas o sítio que escolhi para fazer o meu luto. Há quem celebre o fim de uma etapa (que no meu caso nem começou) com uma noite de copos, com um desabafo com os amigos, com um retiro zen, mas decidi afogar as minhas mágoas numa tarde de compras. Além de estar distraída, mimo-me e esqueço quem pretendo esquecer. E no final do dia de certeza que pensarei mais no dinheiro que gastei (ups)...
Acho que era a única mulher solteira naquele centro, em contraste com todas as famílias e casais que passeavam mais do que compravam (porque os dias não estão para essas coisas). Por outro lado, devia ser das poucas que não procuravam presentes para colocar debaixo da árvore de natal. Sempre que me perguntavam é pra embrulhar? lá tinha eu de responder Não, obrigada. Claro que havia sempre uma senhora que olhava para mim por cima do ombro, pensando talvez que fútil que frívola.
O supermercado foi uma aventura (para variar). Será que alguém poderia deixar de inventar os tamanhos familiares e pensar no tamanho solteiro? Há imensas coisas que uma pessoa que vive sozinha como eu deixa de comprar ou deixa estragar: rolos de carne (dão para alimentar sete ou oito), fruta embalada, pão, gel de banho (enjoo o cheiro e ele dura 3 meses), detergente da roupa...
Cheguei a casa já de noite. Sabe-me bem entrar no silêncio da minha casa e sentir pelo cheiro que estou a salvo, que no meu ninho posso sempre contar comigo. Um dia terei saudades desta vida a um, por isso agora saboreio-a bem e aproveito cada dia, de chuva ou de sol, para namorar com a minha cara metade: a minha outra metade.


