Sunday, November 13, 2005

Luto Capitalista


Acordei com o sol do meio dia a bater-me na cara. Claro que dá vontade de adormecer outra vez e foi o que fiz, levantando-me hora e meia depois. Como é tradição quase desde sempre fui tomar o pequeno-almoço na pastelaria do costume (que muda conforme os diferentes sítios onde tenho morado), acompanhada pela revista feminina do mês. Depois de uns pingos de chuva a mais cheguei ao meu destino: o centro comercial. O pesadelo de qualquer pessoa num domingo à tarde, mas o sítio que escolhi para fazer o meu luto. Há quem celebre o fim de uma etapa (que no meu caso nem começou) com uma noite de copos, com um desabafo com os amigos, com um retiro zen, mas decidi afogar as minhas mágoas numa tarde de compras. Além de estar distraída, mimo-me e esqueço quem pretendo esquecer. E no final do dia de certeza que pensarei mais no dinheiro que gastei (ups)...
Acho que era a única mulher solteira naquele centro, em contraste com todas as famílias e casais que passeavam mais do que compravam (porque os dias não estão para essas coisas). Por outro lado, devia ser das poucas que não procuravam presentes para colocar debaixo da árvore de natal. Sempre que me perguntavam é pra embrulhar? lá tinha eu de responder Não, obrigada. Claro que havia sempre uma senhora que olhava para mim por cima do ombro, pensando talvez que fútil que frívola.
O supermercado foi uma aventura (para variar). Será que alguém poderia deixar de inventar os tamanhos familiares e pensar no tamanho solteiro? Há imensas coisas que uma pessoa que vive sozinha como eu deixa de comprar ou deixa estragar: rolos de carne (dão para alimentar sete ou oito), fruta embalada, pão, gel de banho (enjoo o cheiro e ele dura 3 meses), detergente da roupa...
Cheguei a casa já de noite. Sabe-me bem entrar no silêncio da minha casa e sentir pelo cheiro que estou a salvo, que no meu ninho posso sempre contar comigo. Um dia terei saudades desta vida a um, por isso agora saboreio-a bem e aproveito cada dia, de chuva ou de sol, para namorar com a minha cara metade: a minha outra metade.

Saturday, November 12, 2005

Para trás das costas

Já o fiz no passado, mas volto a perguntar: como é que se esquece alguém de quem se gosta? Como é que de repente a pessoa que tornava cada pormenor do nosso dia melhor (ou menos mau) tem de deixar de existir? Alguém que influencia assim a nossa vida tem de deixar de o fazer? Simplesmente acordamos um dia e a presença certa e determinante é apagada? Há quem defenda que é um processo gradual, pois o tempo cura tudo ( se é assim deviam vendê-lo em farmácias). O tempo não cura nada. Porque a tudo o resto são adicionadas as saudades. Cada minuto que passa sentimos mais a falto do outro. Cada segundo respiramos um bocadinho menos. Não bastam as recordações dos momentos, dos cheiros, dos toques, mas as saudades disso tudo também. Qualquer pormenor do nosso dia nos transporta para um verdadeiro filme do passado. Será que existe algum truque? Mantermo-nos o mais ocupadas possível pode ajudar, até que estoiramos ( como eu hoje, de cama...). Fingir que nada aconteceu é impossível, porque o nosso album de fotografias não se rasga simplesmente. Colocarmos outra pessoa no seu lugar é sempre uma (boa) ideia, mas com resultados catastróficos a muito curto prazo. O que há então a fazer? Nada. Viver o futuro sem fingir que nada aconteceu. Reconhecê-lo e que correu mal e nada há a fazer. Ocuparmo-nos com as mesmas coisas de sempre (talvez um bocadinho de compras a mais) e sair com os amigos, que esses nunca deixam de nos ligar e inventam desculpas para isso. Tentar nos primeiros tempos fugir dos sítios e detalhes que nos lembram o que estamos a tentar esquecer. E depois é apenas viver a nossa vida, como ela tem sido até agora. Melhores dias virão. Novos amores e paixões. Por enquanto temos de nos contentar com o de sempre mas também o primeiro e mais importante de todos: nós.

Os dois momentos

Existem dois momentos que me custam mais a ultrapassar, que foram vividos contigo de uma forma que a minha alma não consegue apagar.
O primeiro foi num dia já muito à noite, depois de um café tomado num sítio que prometia ser calma mas que acabou por ser tão barulhento que mal nos conseguíamos ouvir (deve ter sido aí que comunicámos pela primeira vez sem palavras). Estávamos sentados no carro e deitávamos conversa fora. Falávamos das coisas mais disparatadas e ríamos como duas crianças sem obrigações. Nem reparámos nas horas. Já me tinhas confessado que sentias vontade de me beijar e eu não sabia se o farias nessa noite... Lentamente, cada minuto que passava era menos um centímetro de distância entre nós. Quando nos apercebemos que eram 4h não estávamos mais longe que uma respiração.
O outro momento foi tempos depois, no sofá da minha sala, numa noite depois de um dia estafante de trabalho. Sentaste-te no canto mais distante e eu, sem dar por isso, fui-me chegando cada vez mais perto. Até que fiquei encostada a ti, enrolada em ti, com a minha cabeça a descaír no teu ombro. Sabia-me bem estar ali, assim, enroscada em ti. Conversávamos não sei de quê quando me calaste com a tua boca na minha. Até hoje, quando fecho os olhos sinto o nosso calor juntos, quando eu procurava o ninho dos teus braços. Talvez por isso me seja difícil sentar no mesmo sofá e deixe sempre livre o canto que tu ocupaste (por tão pouco tempo), onde estivemos os dois.

Thursday, November 10, 2005

Chuva

Eram três e meia e começou a chover. Sem forma de me resguardar a não ser um sobretudo, senti as primeiras gotas a roçarem a minha cara ao de leve. Tentei resistir-lhes. Pensei em dar uma corrida até à entrada de um prédio mais próximo. Mas aquele fiozinho de água a escorrer por uma madeixa de de cabelo até chegar ao canto da minha boca fez-me lembrar a última tarde em que te vi, em que estive contigo à distância de um toque (e nem uma palavra consgui dizer). Abrandei então o passo. Parecia que me encontrava num filme de época, a preto e branco, onde todos circulam em direcções erróneas e eu avançava numa câmara lenta destacada. E assim segui até ao meu destino, acompanhada por aquela chuva, soprada com um vento insistente e frio, que me trazia sentimentos repetidos. O ar que respirava arrefeceu subitamente, ficando o meu peito gelado e apertado. A respiração tornou-se forçada. Tal como naquela tarde. Parecia que estavas de novo perto de mim, comigo, ali, naquele momento. Todas as sensações se repetiam. Tenho a certeza que se fechasse os olhos e os abrisse novamente tu estarias ali, à minha frente (não quis arriscar). Continuei o meu caminho saboreando o molhado cada vez mais frio do meu corpo. Em tudo se assemelhava. Durante esse tempo estiveste comigo, talvez caminhando a uma curta distência e a viagem para casa deixou de custar tanto. Foi só neste bocadinho da tarde que te deixei entrar no meu pensamento e te pedi para caminhares comigo. Foi a chuva que te trouxe, a mesma que agora me ensopa o cabelo. Foi também a chuva que te levou, numa tarde de Outubro.
(Todas as tardes de chuva me fazem agora lembrar a última contigo. Rapidamente sou transportada para todos os momentos e sensações que choveram nesse dia. Parece realmente que lá estou....)

Sunday, November 06, 2005


Sinto tanto a tua falta. As saudades ardem-me por dentro. Nem uma hipótese me deste...

Dizem que a vida é o que acontece enquanto fazemos planos... Há muito tempo que não planeio nada e tento não pensar demasiado no futuro. Deve pois haver pouca vida pelos meus lados nestes últimos tempos. Largos tempos. Parece que vivo para mim há uma eternidade, ou pelo menos não partilho o que vivo. E isso faz falta. Muita. Parece que de outra forma as coisas são apenas vividas pela metade ou então que se perdem pelo caminho.